Uma Trapaça nas Estrelas

 

A DESCOBERTA DE NETUNO MOSTRA UMA TRAMA SÓRDIDA URDIDA ENTRE AS PAREDES DO OBSERVATÓRIO DE GREENWICH PARA SURRUPIAR A GLÓRIA DE LE VERRIER

Para nós, apaixonados estudantes de astronomia, que não dispomos dos extraordinários recursos da alta tecnologia espacial, mas acompanhamos e imaginamos o fascinante  trabalho e insólitos recursos de que dispõem esses magníficos pesquisadores nos altíssimos degraus da astrofísica e da cosmologia, e, em nosso deslumbramento, jamais queremos acreditar que entre esses super-stars possam surgir as mesmas e costumeiras encrencas que acometem os comuns mortais aqui embaixo, no chão de nosso desfigurado planeta...

Por essa razão, nos entristece, profundamente, saber que eles também tem emoções como nós... e pecados como nós...

Há, no entanto, como nos compensarmos dessas frustrações, nos devaneios de nossos deslumbramentos, sempre que acompanhamos, as notícias que esses magníficos catadores de estrelas nos infinitos escaninhos do universo, a cada novas e insólitas descobertas exaltam nossas almas, deliradas ante a grandeza do Infinito...

Desde os tempos escolares aprendemos que o sábio alemão William Herschel, nascido em Hanover, em 1738, foi o descobridor do planeta Urano, o primeiro planeta transaturnino, a partir do que ocorreria uma radical transformação na história de nosso Sistema planetário...

Também, desde os tempos escolares aprendemos que dois grandes matemáticos: o universitário inglês John Adams e o sábio francês Lê Verrier,  tiveram participação simultânea na descoberta do planeta Netuno de órbita acima da órbita de Urano...

Nada, no entanto, mais falso!

Criaram os ingleses uma poética e glamourosa encenação sobre a insistente performance de Adams, (quase comparado ao gênio de Newton), e outras personagens do famoso Observatório Real de Greenwich...

Segundo a tradicional revista científica “Scientific American”, em matéria publicada em fevereiro de 2005, assinada pelo escritor e crítico da história da astronomia, William Sheehan, os ingleses teriam falsificado documentos da época que criaram o insólito histórico da participação do jovem Adams indevidamente agraciado com a gloriosa descoberta do planeta Netuno, igualando-se ao gênio francês, Le Verrier, o verdadeiro responsável pela descoberta do planeta Netuno.

Todos nós sabemos da importância do trabalho genial de Le Verrier e os seus geniais cálculos matemáticos que tornaram possível aos catadores de astros apontarem os seu telescópios, com a precisão matemática, e encontrar, para regozijo da ciência e de seus iniciados, o planeta Netuno, com  a diferença de apenas um grau de arco no Zodíaco...

Avaliar a alma humana e contabilizar suas trapaças tem sido uma constatação que repugna os nobres instintos das pessoas mais lúcidas e nobres...

Encontramo-nos acostumados, e já não nos surpreendemos, quando estas ocorrências surgem entre mercadores ou políticos de pouco crédito...

Mas quando essas ignomínias saltam sobre os muros de tradicionais universidades, nem sentimos raiva, mas, sim tristeza, por descobrirmos que a própria ciência, a grande fazedora do bem humano, na qual depositamos as nossas mais imperiosas esperanças, também poderá se encontrar contaminada pelos vírus que ela, sim, deveria detectar para curar...

O escabroso capítulo da trapaça relativa aos cálculos do universitário inglês, Adams, sobre a influência de um planeta além da órbita de Urano e que perturbava os trânsitos deste planeta em sua órbita entre 1822 e 1845 veio à tona quando se soube que o astrônomo Olin Eggen, depositário em Greenwich dos documentos comprobatórios desses eventos, os cálculos de Adams, teria se mudado para  a Austrália, e depois para o Chile, carregando, perversamente, as provas da falsificação documentária, tão comprometedora para a verdade científica...

Mesmo após inquirições de seus superiores, sempre se negou devolver as provas da iniqüidade...

Trinta anos se passaram.

E, somente após a morte de Eggen, alguns astrônomos encontraram no seu apartamento, no instituto Chileno de Astronomia, os documentos perdidos, a partir dos quais foi possível reavaliar a verdadeira história da descoberta de Netuno e fazer justiça ao sábio francês Lê Verrier, incontestavelmente o maior gênio matemático de seu tempo, o verdadeiro descobridor do planeta Netuno

Mas a verdade sempre prevalece e a justiça tarda mas não falta.

E a comunidade científica, em justa homenagem ao gênio francês, em reconhecimento pelo seu genial trabalho deu ao planeta por ele descoberto o nome proposto por Lê Verrier: Netuno, como ficou definitivamente batizado o quarto dos gigantes de órbita exterior...

As observações e críticas formuladas sobre a incompetência de Adams se encontram, entre outras, nas perguntas formuladas pelo Diretor do Observatório de Greenwich, George Airy e jamais respondidas pelo indigitado acadêmico...

Airy teria insistido, exigindo-lhe as comprovações  sobre os cálculos fundamentais do raio vetor de Urano, para a determinação do trânsito exato do presumível planeta transuraniano, sem, no entanto jamais ter tido resposta...

A parti daí a dúvida se sucedeu e pessoas sensatas perseguiram a verdade até encontrá-la, trinta anos depois, para colocar o astuto no seu devido lugar...

Entretanto, chega  ser desconcertante que os meios acadêmicos e científicos da comunidade britânica, tenham alimentado a farsa, insistindo até a sua confirmação: John Adams seria o verdadeiro descobridor, ao lado de Lê Verrier - o verdadeiro responsável pelos magistrais cálculos que levaram os astrônomos do Observatório de Berlim a identificar com exatidão de um grau, o planeta gigante em órbita ao redor do Sol depois de Urano...

Mas a mentira tem pernas curta, e, trinta anos após a morte do traficante Eggen a trapaça foi descoberta e a verdadeira história reescrita para alegria dos amantes da Astronomia e cultores da verdade...