| Quanto Vale Uma Vida |
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Duas
crianças conversavam na calçada, próxima à residência onde moravam... André,
de 13 anos e seu coleguinha, Edson, mais ou menos de sua idade. O que
conversavam, não sabemos, nem nos preocupa. Conversas de adolescentes são
sempre ingenuidades, idênticas às vividas por todos nós nos idos de
nossas infâncias... Não tramavam maluquices dos jovens marginalizados; não se encontravam nas vielas obscuras onde jovens desgarrados se entregam à saciedade do vício precoce... Com certeza André e seu coleguinha falavam de futilidades no aprendizado cotidiano de um pré-adolescente provinciano de família simples, mas honesta. Seus pais, gente da mais pura argila espiritual. Gente responsável, trabalhadora... Uma família como milhares de outras da sociedade brasileira da chamada classe média... Oriundos do Rio de Janeiro fizeram o que muitos urbanos têm feito: fugir da violência urbana para uma pacata cidade do interior, onde pretendiam se estabelecer. O pai, um excelente lanterneiro, responsável e competente... Exemplar chefe de família. A mãe de prendas domésticas, exemplo de maternidade voltada para o bem-estar de sua prole e do marido. Adriana, a irmã mais velha, é professora de informática, e um dos patrimônios culturais de Bom Jardim. André é o temporão. Um garoto simpático, alegre, bonito, inteligente... O genitor, o boa praça Mauro, investe no filho todas as esperanças de sua alma. Como todo pai exemplar imagina para o futuro do filho amado, um destino muito melhor que esse que ele mesmo vivencia... Quantos sonhos em suas noites serenas, esse pai excelente tem protagonizando o filho herói. E não lhe faltam motivos para investir em André... Quando iniciei o Curso de Astronomia na Casa da Cultura, entre os alunos encontravam-se professores, profissionais liberais e outros... Entre eles, alguns jovens, e o André, o pré-adolescente que me motivou estima e, porque não dizer, respeito por sua lúcida opção... Tomei-me de um excepcional carinho e admiração por ele, por conta de sua inteligência e persistência na busca de um conhecimento que atrai, somente uns poucos espíritos mais lúcidos... Na tarde da ultima sexta-feira André conversava com o coleguinha Edson, em frente à casa onde morava. Alegre, despreocupado, o sorriso feliz de uma criança feliz. O rostinho moreno, simpático, bonachão... André é um modelo ideal de criança que qualquer pai ou mãe deve delinear para seu próprio filho... André estava sentando junto do coleguinha Edson, no meio-fio da calçada em frente à casa de seus pais... Despreocupados. Afinal de contas Bom Jardim é uma cidade pacata, calma de gente educada, ordeira e feliz... Bom Jardim encontra-se longe... muito longe da violência das urbes assombradas que estremecem de medo as almas de seus habitantes... Conversavam ingenuidades, como toda criança... Talvez projetos de pré-adolescentes normais, inteligentes... O que discutem pré-adolescentes, o que planejam, o que procuram no mundo dos adultos nervosos, preocupados com os rumos de sua própria existência? Bom Jardim ainda é uma cidade pacata? Há cerca de alguns meses uma gestante foi brutalmente atropelada por um motorista em alta velocidade... André e Edson faziam projetos para o fim-de-semana... De repente, dois motoqueiros surgem como aves fantasmagóricas, terríveis, devastadoras... Na corrida se atropelam e um deles irrompe violentamente sobre as duas indefesas crianças... No hospital duas famílias desesperadas oram a Deus e buscam os milagres nas mãos dos médicos... André não sabe o que se passa ao seu redor. Nem percebe, no grave estado de inconsciência em que se encontra no CTI, a angústia da família cujas lágrimas são tormentosas avalanches de dor e desespero. Eu conheço André, eu amo André, eu oro também a Deus para que recupere André. E rogo também para que se dê um Basta! Nas corridas de touros nas ruas de Bom Jardim... Madrugada de quarta-feira, dia 18... André é recebido na Casa do Pai Maior... |
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