A Biblioteca e o Computador

   

O suntuoso prédio da Biblioteca erguia-se aos céus em mística contemplação aos deuses do Firmamento!

E oferecendo-se generosamente à saciedade das mentes férteis que ao longo dos séculos, transpuseram os marmóreos degraus para percorrerem os longos corredores nos quais centenas de milhares de livros abriam-se, milhões e milhões de vezes, para alumiar aquelas mentes sedentas dos buscadores do saber.                                              

A famosa Biblioteca exibira ao longo de séculos o orgulho de ser a precursora do Saber e ter abrigado naqueles corredores e salões muitos dos mais prestigiados sábios em diferentes momentos da História da Civilização.

Os tempos se passando e a velha Universidade pródiga, luminosa, tornara-se o Panteão augusto de seus criadores, seara fecunda dos mais eruditos pensadores, doutos enciclopedistas e cientistas, seminário fértil de dedicados acadêmicos, alumiando os caminhos de diferentes camadas das sociedades e das civilizações, nos diferentes continentes do planeta, paises e nações...

Catedral e celeiro do Conhecimento, disseminando cultura e Saber nas ciências e campo de pesquisas, da filosofia, da história das civilizações, das religiões e das mitologias dos povos etc... Cada vez mais útil, reconhecida em todo o planeta pela aura luminosa e magia de seus ensinamentos, atraia cada vez maior número de novos mestres e discípulos ansiosos que vinham de diferentes lugares para beber da água cristalina de suas numerosas fontes...

Os tempos foram passando, a ciência evoluindo, crescendo, crescendo tanto, até se crer, obviamente entre setores do heretismo industrial, não mais caber dentro dos muros da velha Biblioteca...

E alguns hábeis técnicos, depois de beberem tanta água quanto puderam, ali, na fonte magiante da velha Universidade, clonaram todo o saber, e com o produto dessa clonagem, criaram em laboratórios o berçário da mais insólita “pirataria” de todos os tempos...

E nessa nova maternidade transgênica da criação dos homens nascia o Computador...

A princípio modestamente, mas, gradativamente, crescendo, preenchendo espaços e tempo e envolvendo em novas emoções até muitos eruditos freqüentadores do antigo e famoso Templo da  Sabedoria Universal... 

Entretanto, com a audácia de todo nouveau riche, não tardou a se inflar de soberania, passando-se por indispensável e até mesmo infalível...

Certo dia o presunçoso Computador cometeu a heresia de subir os primeiros degraus da velha Biblioteca e afirmar sem cerimônia que ela já se encontrava obsoleta:

- Sou muito mais importante e indispensável que tu. Porquanto posso ter em meus arquivos tudo que armazenastes em milênios de estudos e pesquisas... E, ao toque mágico de meus dígitos, como por encanto da magia, em frações de segundo, faço projetar em minhas telas todo o conhecimento que os teus leitores levariam anos para descobrir...

A Biblioteca, com a serenidade de uma verdadeira soberana, respondeu sem arrogância...

- Reconheço a tua importância e exalto o teu mérito... Entretanto, amigo, apesar da velocidade de teus “bits” jamais prescindirás do Tempo que amadurece os frutos da terra e as mentes dos humanos. O homem inteligente poderá adquirir ilustração e até mesmo vasto conhecimento nos arquivos de tua memória. Mas, jamais poderá atingir a verdadeira Sabedoria ao toque dos teus dígitos... Ou mais rapidamente do que exercita os seus neurônios nos meus salões de   leitura...

E ante a perplexidade do Computador, acrescentou conclusiva:

- Entre os teus chips de metal e os neurônios dos meus leitores e discípulos está o milagre de Deus...