Boi Gordo, Boi Pintado e Boi Carreiro

 

Amados leitores, a humildade é, certamente, a mais eficiente forma de convivência. E o discernimento seu irmão gêmeo... Algumas vezes palavras cruéis ferem mais do que atitudes violentas. Em um dos meus contos narrei uma historinha que vem bem ao caso...

Era uma vez, no tempo em que os bichos falavam, em uma fazenda do interior, Touro Pintado e Boi Gordo, estando pastando no campo, observaram Boi Carreiro que arrastava um pesado carro atolado de cana na direção do engenho de moagem...

Aproveitaram, enquanto o Tangerino cortava o fumo do próximo cigarrinho de palha para provocar o carreteiro:

- Como estúpido és Boi Carreiro! disse Boi Gordo, com desdém.

Ridículo o teu jeito de andar, e mais ridícula ainda, essa canga que tens           atada ao teu pescoço... Veja com sou feliz, bem alimentado e em liberdade com os meus irmãos da manada...

Touro Pintado interveio:

- Enquanto eu vivo cortejado pelas mais viçosas matrizes do plantel, sem

me preocupar com nada, este pobre escravo passa os dias arrastando o seu  fardo, para  lá e para cá, sem descansar um só instante.

Boi Carreiro contestou com humildade:

-  Não me acho ridículo;. Apenas ganho com o meu árduo trabalho o sustento.

- Ah, ah, ah... riu Boi Gordo.

E acrescentou com ironia:

- Tenho observado, diariamente, enquanto pasto tranqüilamente nas encostas   

verdejantes, o teu desprezível labor. Arrastando um pesado carro cheio de      cana, tocado pelo tangerino...E continuou com mais ironia ainda:

- Eu, não! Veja como estou gordo, formoso, meu pelo brilhante, e meus

Chifres aparados. Como os meus irmãos bois gordos vivemos tranqüilamente e somente pensamos em nossa rica alimentação...

Passaram-se os tempos, meses se passaram, um ano inteiro sem que nada mudasse a rotina da fazenda...

E tudo parecia correr normalmente. Boi Gordo somente pensava em pastar o verdejante capim, correr e brincar com os irmãos da manada. E Touro Pintado exibia orgulhosamente sua poderosa força junto a vaquejada.

Certo dia foi despertado por tremendo alvoroço. Os vaqueiros montando velozes cavalos juntavam todos os bois, e, um a um, iam sendo jogados dentro de uma carreta, para o destino do frigorífico... 

Quando estavam todos dentro da carreta aproxima-se Boi Carreiro, arrastando o carro de cana.

Parou diante da carreta, enquanto o tangerino cortava o fumo para mais um cigarrinho de palha, e observou Boi Gordo, muito nervoso e triste, sem perceber, no entanto, o que estava acontecendo, trancado dentro daquele breque como jamais vira igual... A voz do capataz se ouviu, forte:

- Já pesamos a boiada, patrão! Trezentas arroubas.

A carreta se afastou lentamente e Boi Carreiro, arrastando o carro, após longa caminhada, parou em frente a uma tamarineira, enquanto o tangerino cortava o fumo do seu cigarrinho de palha...

Uma pequena multidão de vaqueiros se reunia debaixo da árvore, enquanto imobilizavam o velho Touro Pintado preso ao tronco...

Um vaqueiro de barba rala e cabelos grisalhos, acariciando o touro, exclamou:

- Touro Pintado metade dos bois, vacas e bezerros desta fazenda são teus filhos, netos e bisnetos.

E empunhando a faca abaixou-se e castrou Touro Pintado. Enquanto castrava afirmava sem piedade:

- Agora, Touro Pintado, você vai se chamar Boi Gordo...

 O tangerino pôs o fumo picado no cigarrinho de palha, riscou o último fósforo que lhe restava, e tocou o carro em direção ao engenho de moagem...

Boi Carreiro nada entendia do que se passava. Mas teve um arrepio de angústia. Com um doloroso mugido de tristeza seguiu arrastando o carro atolado de cana na direção do engenho...